A diferença é como se faz!

Voltando ao início de tudo… Não consigo lembrar ao certo quando começou, mas lembro-me como se fosse ontem…

O que separava a minha casa da dela era apenas um muro e um portão. Ainda bem pequenina, sempre que possível, eu largava as poucas bonecas e as panelinhas da cozinha de brinquedo e ia brincar com as panelas de verdade. As primeiras lembranças são dos biscoitinhos amanteigados… Eu a ajudava a misturar, enrolar e a amassar levemente com o garfo. Depois era só contar os minutos e esperar ansiosa até que saíssem do forno.

Depois vieram os bolos, alguns outros doces… Eu não tinha ainda nem 10 anos e já sabia fazer ou reconhecer uma cozinha com boa qualidade.

Uma das coisas que aprendi com ela foi que não se precisava de muito para fazer um banquete. Bastavam alguns ingredientes para que uma nova delícia ficasse pronta. Com uma calda de açúcar, um cravo e ½ dúzias de figos frescos ela fazia a melhor compota que já comi em toda a minha vida. E eu nessa época ainda era adolescente.

O segredo não era o que se colocava, mas a forma como era feito que tornava tudo especial.

E assim os anos passaram… Caminhos novos e objetivos foram traçados. Mas sempre que possível estávamos ainda juntas na cozinha, aprontado alguma nos fins de semana. O tempo ficou ainda mais curto e os afazeres da juventude pareciam absorvê-lo cada vez com mais intensidade: estudos, trabalhos, relacionamentos… Mas a cozinha estava em mim e eu nela, ao ponto de tornar-se um hobby, compartilhado nos poucos momentos livres.

Mais um pouco de tempo e ela não estava mais conosco. Foi descansar com o Pai depois de um longo período de dores…

O meu carinho por ela é eterno. Minhas lembranças de hoje são as mesmas da infância. E se alguém me perguntar se eu tive uma inspiração ou de onde saiu tanto amor, dou uma única resposta: eu vi e vivi desde a infância com a essência de uma maravilhosa cozinheira que, como mágica, transformava “escassos” ingredientes em um banquete. Em suas mãos, polvilho, ovo e água se transformavam no melhor biscoitinho salgado. Ela despertou em mimuma paixão que, por anos, apenas era conhecida por alguns amigos “ sortudos”.

Mas, depois de muitas vindas, estamos aqui… Não mais no começo, mas para dar a continuidade. Orgulho-me da minha referência e da minha professora, minha querida “ Ia”, nossa Maria de olhos doces, de braços sempre estendidos e exemplo de integridade e fé inabaláveis, que não tinha graduação em gastronomia ou qualquer outro título, mas tinha de sobra o principal ingrediente: o amor pelo prazer de cozinhar, que me ensinou que não basta o que se usa, mas principalmente como se faz!

Eliane Valle

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